segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Lágrima


Encontraram-se um dia, uma lágrima, uma estrela, uma pérola e uma gota de orvalho. Falou primeiro a estrela:

Quem diria que eu tivesse o trabalho de descer das alturas luminosas, para vir conversar com vocês três?

Não sabem que sou mais alta que as nuvens?
E que a minha altivez fulgura entre mil chamas radiosas, na infinita amplidão?

Mas, respondeu a pérola vaidosa: - Quem te dará valor, entre milhões de lâmpadas no espaço?
Tu não passas de um grão de esplendor, metido na poeira do infinito.
Ninguém se lembra de te pôr nos braços! Enquanto eu, lá no fundo dos oceanos, sou buscada e vendida aos soberanos, para enfeitar, com minha limpidez, as coroas dos reis! Vivo no colo esplêndido dos nobres, e nos ricos seios das rainhas...
Não como tu, que sob o olhar dos pobres poetas vagabundos te encaminhas...
Valho mais que tu! E ainda mais valho que um orvalho e uma lágrima, pois ambos são gotas d'água, sem o mínimo valor.

Disse o orvalho, com mágoa: Qual de vocês três, têm esse encanto de se transformar em gozo, na boca imaculada de uma flor?
Eu venho lá de cima, nos braços da alvorada, cobrir de beijos uma rosa, que se sente tão doce nesse instante, que vale a pena vê-la tão ditosa!
E trago o riso ao coração da Terra, engolfada em pranto.
Eis como sou feliz! Na campina, ou no cimo da serra, sou sempre uma esperança cristalina, nos lábios sorridentes de uma flor! Calou-se o orvalho.

E a lágrima? Coitada, esta nada dizia...

E que respondes tu? Perguntaram os demais.

E ela, rolada na terra húmida e fria, nada ousava falar...
Porém, sublime e calma, respondeu: Eu sou o perdão no crime e a vibração no amor!
Bailo no olhar risonho da alegria, moro no olhar tristíssimo da dor! Eu sou a alma da saudade e da harmonia!
Sou o estrilo na lira soluçante dos poetas, sou oração no peito dos ascetas, sou relíquia de mãe em coração de filho, sou lembrança de filho em coração de mãe!
Não vivo nos seios perfumosos,nos colos orgulhosos, na ostentação efémera do luxo...
Porém, penetro no espírito do mundo, seja do rei, do sábio mais profundo, do rústico mais vil... do pecador, do santo, até na face do Senhor um dia já rolei...
Eu lágrima pequena, penetrei no coração de Deus, e fiz estremecer, abrir-se extasiado o pórtico dos céus!
Não sei quantos pecados já lavei! A lágrima calou-se humildemente, deslumbrando...

Em silêncio, a tudo contemplou serenamente, na vastidão vazia...

A estrela se ocultou atrás de uma nuvem e chorava...
A pérola desceu à profundeza dos mares e chorava também...
O orvalho tremulando sobre a relva também chorava...

a) autor desconhecido

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nocturno


Amor! Anda o luar, todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que anda pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma que eu te dei, cheia de mágoas,
É nesta noite o nenúfar de um lago
Estendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...

a) Florbela Espanca

Inconstância



Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também...nem eu sei quando...

a) Florbela Espanca

Menina de Louras Tranças


Menina de louras tranças,
Tão louras, como os trigais,
Vai correndo na esperança
De ouvir os madrigais.

Os madrigais são tão belos
Quando ditos com amor,
Podem não ser verdadeiros
Mas causam esplendor.

O esplendor da inocência
É de uma beleza impar,
Só que passa bem depressa
E deixa feridas a sangrar

M. Vital

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Passeio Na Praia


Certo dia fui à praia,
Alegre e prazenteira,
Achei uma linda concha,
Abandonada na areia.

Apanhei tão belo achado
E ao olhar com atenção,
Essa concha singular,
Em forma de um coração.

Seria uma oferta divina,
Posta por Deus no caminho,
Para guiar os meus passos
E traçar o meu destino.

Oh mar! oh imenso mar!...
Com tantas lendas ouvidas,
Nesse dia encontrei,
O amor da minha vida!...

autor: M.Vital

As 4 Estações













Primavera

Na primavera da vida,
Há esperança para viver,
E muita ilusão perdida,
Na vida que se escolher...

Verão

No verão a vida passa,
Em cada dia vivido,
Nem sempre se alcança,
Os desejos pretendidos...

Outono

No outono ainda há esperança,
de se poder alcançar,
Um pouco do que ficou,
de uma vida, a remar!...

Inverno

No inverno,já nada existe!
Nesta vida de ilusão!
Apenas resta a saudade, e...
Também a solidão!!!

aut:M.Vital

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Despedida




Nesta vida em turbilhão...
Sinto algo que palpita,
Talvez seja meu coração,
A chorar sua desdita!...


Há momentos que procuro,
Esquecer a realidade,
Da vida que julgo!...
Ser até à eternidade!...


Quando chegar esse dia...
Não sei o que farei!...
Será o fim de uma vida,
Que muito!... muito!... amei!

autor: Manuela Vital